Exórdio
Passamos os últimos quatro dias vasculhando toda Barcelona, e inclusive os arredores algo inóspitos de Badalona e L’Hospitalet, em busca de algum bom mestrado em objetividade – fosse esse lato, stricto ou contra sensu -, mas não tivemos sucesso.
Pior: este Capotón ainda se deparou com a terrível casualidade de se encontrar na mesma sala em que um Manual da Redação da Folha de S. Paulo – um cânone que, entre um bocado de doutrinas um pouco menos decisivas para o destino do planeta, estabelece que ela, a objetividade, não existe. O que, de certa forma, resolve o nosso problema e tira uma importante arma das mãos de nossos opositores e seus cérberos sentinelas.
Isto posto, falemos de Ronaldinho. Ou recomponhamos um punhado de eventos recentes:
- 16 de setembro: Ronaldinho não joga bem, mas também não joga mal, e é substituído no segundo tempo contra o Osasuna. O Barcelona empata em 0 x 0.
- 19 de setembro: Ronaldinho não joga bem, mas também não joga mal, e é substituído no segundo tempo contra o Lyon. O Barcelona ganha por 3 x 0.
- 20 de setembro: a imprensa quebra um pacto tácito e fala abertamente sobre uma saída de Ronaldinho pela noite barcelonesa, 48 horas antes do jogo contra o Osasuna, na véspera de um treinamento que começaria às 10h da manhã.
- 21 de setembro: segundo se comenta no Camp Nou, muitos sócios do Barça, indignados, passam o dia ligando para o clube denunciando o absurdo que é o sujeito chafurdar na boemia na véspera de um dia de trabalho. No clube, só se fala nas subsitutições, no suposto “baixo rendimento”, no “Código Interno de Disciplina” que foi implantado este ano. Joan Laporta admite que “Ronaldinho não vive seu melhor momento” e que “agora é hora de apoiá-lo”.
- 22 de setembro: alegando uma contratura muscular na panturrilha, Ronaldinho não fica nem no banco na vitória por 2 x 1 sobre o Sevilla. Messi, autor dos dois gols, os comemora fazendo o hang loose que deixou de ser sinônimo de surfe e passou a ser do camisa 10.
- 24 de setembro: o tom das críticas a Ronaldinho nos jornais, rádios e emissoras de TV não esmorece nada. Seu irmão e manager, Roberto de Assis, declara que “há gente usando as críticas a Ronnie para na verdade atingir outras pessoas”. Perguntado se se referia a possíveis farpas contra Sandro Rossell, diz: “não vou falar nomes, não sei. Mas tenho esta impressão.”
- 25 de setembro: o The Sun, cujas palavras têm tanta credibilidade quanto as da TV Senado, garante que Abramovich vai comprar Ronaldinho agora mesmo, por 70 milhões de euros. O site Todo Corazón – um daqueles que leva o termo credibilidade a outra dimensão cosmogônica – capricha mais no roteiro adaptado e garante que o problema é que Ronaldinho está de camaradagem com a filha do técnico, Lindsay.
E é assim que se têm vivido em Barcelona os intervalos entre uma objetividade e outra. Amanhã, se a paleontologia ajudar, relatamos a reação buco-maxilar de Frank Rijkaard a mais uma coletiva de imprensa pós-jogo no sábado e tentamos chegar a alguma conclusão (subjetiva, quando não adjetiva) sobre o caso Ronaldinho. Além, é claro, de um relatório completo daquela que já começa a ser famosa como "A Rapsódia do Século", disputada no último sábado: Nàstic 4 x 1 Poli Ejido.
Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 17:10
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