Depois de amanhã ninguém sabe

Como dizíamos, a zona mista ao ar livre do Nàstic rendeu um breve papo com Thiago Motta. Segundo se comenta por aqui, antes mesmo de o Barça já ter uma lista de jogadores com quem não conta mais, o volante já estava nela. Ele, Belletti, Sylvinho, Rafa Márquez, Edmílson e Giuly seriam teoricamente o topo da tal lista, que se for verdadeira logo logo vai causar um movimento interessante no mercado.

Pela segunda semana consecutiva, uma hora e pouco com o título na mão e, no final, ele vai embora. Tem jeito mais frustrante de perder do que este?

Não é fácil aceitar, não mesmo. Mas não é para pensar que perder o título foi coisa de agora; isso vem de toda a temporada. Não vou dizer que tínhamos o título na mão, mas tínhamos uma chance muito boa de ser campeões e fomos deixando o Real Madrid chegar. A vitória deles foi merecida. Nós falhamos muito.

Qual foi o momento-chave da decisão do título? O gol do Tamudo? O do Rafael Sobis?

Acho que foi, em casa, não ter ganho do Real Madrid; ter permitido o empate em 3 x 3. Se ganhássemos ali, não teríamos essa desvantagem no confronto direto que acabou decidindo o campeonato. Aquilo deu ânimo ao time deles, que começou a jogar bem e, como eu disse, mereceu ser campeão.

E nestes últimos dias já houve alguma conversa sobre o seu futuro?

Ainda não sei de nada. Estava esperando terminar a Liga. Tenho um ano de contrato com o clube ainda, mas meu representante vai sentar com o Txiki (Bergirtistain, secretário-geral do Barça) e então vamos ver o que é melhor para as duas partes, o clube e eu.

Mas você sente que já teve mais moral dentro do Barcelona?

(chateado) Ah, bem mais.

 

Por quê?

Vão acontecendo coisas. Eu me machuquei também, mas não é isso: acaba pesando ficar tanto tempo no mesmo lugar (desde 1999); acaba desgastando a relação. Não com meus companheiros nem com o treinador - com eles sempre tive bom relacionamento. Mas com algumas pessoas de dentro do clube o desgaste é grande, e acho que nao é gostoso ficar assim num lugar. Você tem que se sentir bem para jogar

Você sente que não foi valorizado como deveria nesta temporada? 

(abrupto) Não, não posso colocar a culpa em ninguém; isso quero deixar claro. A culpa de tudo o que aconteceu aqui eu tenho que assumir. Só não posso assumir as mentiras que falaram: não sei se da parte do clube ou dos jornalistas; não sei de onde veio. É a única coisa que não posso aceitar. O resto tenho que aceitar e assumir. (as mentiras a que Motta se refere são as ocasiões, que não foram poucas, em que o acusaram de - para usar uma proparoxítona - notívago)



Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 17:13
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O fim é o fim (7)

22h50: O improviso CharlieParkeriano dos tarraconenses entra em cena: para acomodar tanta gente na Zona Mista, o pessoal do Nàstic monta um corredor no próprio gramado, na porta dos vestiários. Os jogadores passam por lá, voltam para o vestiário e de lá para casa. Este Capotón troca meia-dúzia de palavras com Thiago Motta, entrevistinha que você lê aqui mesmo amanhã (ou depois).

 

 

 

23h55: Apesar de Tarragona estar na Catalunha, há pelo menos 250 madridistas reunidos numa praça no centro da cidade, fazendo barulho, soltando bombas e gritando de tudo, principalmente insultos contra o Barça e a Catalunha. A coisa não tem cara de que vá acabar bem. Ainda falta ver os gols da rodada na televisão para declarar oficialmente, mas a verdade é que o campeonato acabou, enfim.

 

0h22: Quando você acha que já não há mais diversão adiante, eis que sintonizamos na festa do Real Madrid na praça La Cibeles – um monumento no centro de Madri. Para evitar que os torcedores subam na estátua e a destrocem, a festa é organizada calculadamente. O capitão Raúl sobe numa grua, acompanhado apenas de dois funcionários, para colocar uma bandeira do Real e um cachecol no pescoço da estátua. A grua demora horas para conseguir ficar na posição certa, Raúl tenta disfarçar, mas está evidente que ele se sente ridículo desequilibrado e sendo segurado pela cintura pelo camarada que trabalha no controle da grua. Somos partidários do sentimento Unesco da prefeitura de Madri ao preservar o monumento, mas se é para ser assim não é melhor simplesmente fazer outra coisa?

 

Amanhã (ou depois) divulgamos também nossa seleção do espanhol - a que sai publicada na PLACAR deste mês - e também a que foi escolhida pelos leitores.



Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 08:14
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O fim é o fim (6)

22h35: GOL de Diarra em Madri!!! Boa parte da torcida do Nàstic comemora e se dirige ao cantinho onde estão os torcedores do Barça – inclusive os “Boixos Nois”, um grupo de torcedores encrenqueiros que foi proibido de entrar no Camp Nou.

 

22h37: GOL de Reyes em Madri e GOL de um alemãozinho que entrou no time do Nàstic. E é aqui que a coisa fica feia: os torcedores de Tarragona se entusiasmam por marcar o gol no mesmo momento em que o Real Madrid, e, de alguma forma que o subconsciente explica, começam a se sentir responsáveis pela perda do título do Barça, apesar de o placar estar 4 x 1. É a segunda vez em uma semana que os culés comemoram o título durante mais de uma hora e de repente vêm tudo escorrer. A turma azul-grená parte para cima da torcida, tenta pular a grade de divisão. A segurança privada se junta a um batalhão de choque, que senta a pua na rapazeada. Cadeiras voam, copos de cerveja idem. Por alguma razão, o futebol brasileiro vem à mente. O campeonato, senhoras e senhores, está terminado.

 

 

22h45: GOL. Zambrotta marca o que parece o último golzinho antes do final do treino tático, quando todos os jogadores já estão pensando no que vão comer na janta e nem sabem mais o que está acontecendo. Anticlímax em estado brutíssimo. O jogo acaba, 15% das pessoas que ainda estavam por lá invadem o gramado. Puyol quase sai na mão com um sujeito careca que tenta arrancar da sua mão a camisa de um jogador do Nàstic com quem ele trocou a sua.

 



Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 17:06
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O fim é só o fim (5)

21h46: Como na semana passada, o Barcelona chega ao intervalo com a liderança da Liga na mão. Desta vez, se algo acontecer será só por mérito do Real Madrid, porque aqui acabou. Desvencilhado das obrigações de digitar no seu estojo de maquiagem, Jet Li olha embasbacado para algo que não dá para definir se são estas anotações cuneiformes feitas numa folha sulfite que ele acha obsoletíssima ou o empadão de frango que trazemos embalado em papel alumínio.

 

22h05: GOL de Messi, mas quase ninguém percebe nem grita, para não atrapalhar o jogo do Madrid no radinho. Alguém, em alguma parte do estádio, deve ter dito “¿Donde está Gui?”. O telefone sem fio falha e por alguns instantes a cabine 2 prende o ar pelo “Gol del Madrid”. É delicioso ver equipe grande jogando num campinho como o do Nàstic; é mais ou menos como ver o filme do Natal na casa da avó em uma sala do Cinemark (só que ao contrário). Mas, mesmo assim, ninguém mais se interessa. Puyol encosta no árbitro e propõe que todos se sentem no meio-campo, cervejas e amendoim à frente, com o alto-falante do estádio sintonizado no jogo do Real. O árbitro, um tradicionalista, recusa. Mas diz que vai pensar no caso.

 

22h22: GOL em Madri, agora é sério. Suor coletivo, com exceção de uma parte da torcida do Nàstic, que comemora timidamente. Nada disso aparece no placar eletrônico, que continua entediado nos 4 x 0 (ou está 5?).

 

22h28: Frank Rijkaard, que gosta das coisas claras, oficializa que o jogo já não interessa mais e coloca Motta e Oleguer em campo. “Dois que não fazem nada”, analisa iracunda a Garota Capotón. “O Motta é o típico boa-vida: só aproveita o salário, a vida de jogador do Barça.” Ela é a dona do pedaço. A única storyline que de alguma maneira se pode seguir é a de Eto’o, que já perdeu umas 8 chances de marcar aquele que poderia ser seu último gol com a camisa do Barça. Os barcelonistas, que antes cantavam adoidados, fazem uma cara de quem passa na alfândega: estão evidentemente nervosos, mas tentam manter a naturalidade, para não denunciar ao inimigo.



Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 17:05
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O fim é só o fim (4)

 

21h08: Já sacamos como vai ser a comunicação com o jogo do Santiago Bernabéu. Perdidas, três palavras chegam até a cabine, cada uma vinda de um canto: “bola”, “trave” e “Mallorca”. Versões vão sendo ruminadas e retransmitidas até, uns 40 segundos depois, chegar a confirmação: bola na trave do Mallorca. O Barça ataca, tem gol anulado (de Eto’o), e a Garota Capotón prudentemente adverte: “Não podemos ir muito para cima, senão no contra-ataque eles nos matam”. Com “nós”, no caso, sendo o Nàstic. Criei um monstro.

 

21h15: GOL do Mallorca! A torcida do Barcelona, espremida num canto do estádio, explode. Outros tantos barcelonistas espalhados pela arquibancada, também. Os torcedores do Nàstic se dividem: alguns comemoram, outros se calam. Quem marcou foi Varela, avisa o camarada do El Periódico, torcedor do Barça, suando.

 

21h17: Garota Capotón: “Vai, Nàstic, deixa o Barça marcar!” E começamos a entender algo mais sobre a volatilidade do coração feminino. Para não falar no sentido premonitório, já que às

 

21h21: GOL do Barça! Puyol, em dia especialmente epilético, marca de carrinho. “O Nàstic meio que deixou”, vaticina a Garota Capotón, algo desapontada. O estádio está confuso. Quem não queria torcer para o Barça, fica sem graça. A maior libélula jamais registrada em solo não-africano pousa em frente à nossa cabine e tapa a visão da grande área do Barça. Para quem já leu por aqui outras amostras do realismo mágico tarraconense, nada que chame muito a atenção.

 

21h34: GOL do Barça! Messi, como sempre. Quando ele domina a bola, no primeiro toque para arrancar para algum lado, não há quem o segure. No mundo. A libélula, irritada, investe contra o companheiro do El Periódico, que combina pelo celular a comemoração desta noite. O segundo gol congestiona a pista de pouso na lateral esquerda da área de Victor Valdés: são 14 aviões de papel de diferentes companhias aéreas espremidos em 3 metros quadrados.

 

21h38: GOL! Ronaldinho marca mais um na temporada em que mais anotou com a camisa do Barcelona, apesar de ser a que mais foi criticado. O foco definitivamente se volta para o Santiago Bernabéu. Os torcedores do Nàstic começam a se arrepender de não terem trazido uma mudinha de roupa com a camisa do Barça que todos eles têm em casa.



Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 17:04
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O fim é só o fim (3)

 

 

20h51: Os times entram em campo ao som do hino da Catalunha, numa versão que poderia perfeitamente entrar na trilha sonora de Réquiem para um Sonho. E isso não é nem o mais destacado da ambientação pré-evento: logo entra o hino do Nàstic, que qualquer um desavisado é capaz de jurar que se trata de uma versão catalã para A Noviça Rebelde. O estádio está lotadíssimo e, ao contrário do que muita gente supunha, a torcida do Nàstic (uns 70% do total) realmente faz barulho: vaia o hino do Barça, grita alto.



Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 17:04
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O fim é só o fim (2)

20h31: Informações-chave começam a ser desvendadas: tudo corre bem e é verdade que temos cadeirinhas reservadas, na cabine 2, onde temos como colegas o pessoal do El Periódico, do catalão L’Oportunitat, da rádio BBC e de alguma coisa chamada Jet Sports, que deduzo ser o codinome do japonês magrinho, com um laptop só um pouco maior do que o estojo de maquiagem da Garota Capotón. Diferente do que normalmente acontece, a coletiva de imprensa depois do jogo será numa salinha fechada que os camaradas tarraconenses ambiciosamente denominam “pavilhão”. Isso porque têm mais de 400 jornalistas credenciados - o que é mais do que todos os que já se formaram até hoje pela Universidade Federal de Tarragona, no caso hipotético de que ela existisse.

 

 

20h42: O primeiro momento mágico da noite, cortesia do homem-de-cara-verde, um mascote que anima a torcida com seu bumbo solitário e faz a garotada tarraconense se lembrar do seus tempos de Jogos da Primavera na escola. O japonesinho Jet Set olha desconfiado, tentando entender o porquê de uma promoção de lançamento de Shrek 3 àquela altura dos acontecimentos. Ele não entende, ninguém entende, ninguém se importa.

 



Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 17:03
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O fim é só o fim

Ganhar a Liga Espanhola não é tão difícil assim. Difícil é perder o campeonato, e não só uma vez, mas várias, como aconteceu com o Barcelona nas últimas semanas.


Este Capotón resolveu martiricamente assistir de perto à última frustração da equipe que até outro dia era o paradigma de jogo bonito, mas ao mesmo tempo vencedor, e que agora gera consenso sobre a necessidade de reformular. Para melhorar, o desfecho do título espanhol coincidia com a despedida iconoclástica do Nàstic, cujos ensinamentos doutrino-sentimentais agora são assunto para a classe menos privilegiada da segunda divisão. Aos fatos, pois:

 

20h09: É fácil reanimar-se da viagem letárgica de trem até Tarragona: respirar fundo e sentir o ar de decisão que paira sobre a cidade, e que na verdade pode ser o breve sanduíche de rosbife que antecede a ida até o ponto de ônibus. E agora sim podemos dizer que é dia de jogo, depois desse encontro com parte expressiva da barravieja organizada do Nàstic. É por meio deles que sabemos que Edu salvou o Betis com dois gols, e que Celta de Vigo e Real Sociedad acompanham o Nàstic na segunda divisão no ano que vem. Ao que o líder da facção adverte: “vão ser rivais complicados”

 



Escrito por B. Sassi (capoton@uol.com.br) às 16:54
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